Negacionismo e usos afetivos do passado no Brasil contemporâneo
Professor

(Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) - Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA/UFRGS))

Desbravadores da pátria, Museu do Ipiranga. Foto de Luara Baggi.

Desbravadores da pátria, Museu do Ipiranga. Foto de Luara Baggi.

Em conferências apresentadas em 2019, a estudiosa da memória cultural e teórica dos espaços da recordação Aleida Assmann propôs uma análise em que articulava o imaginário em torno da nação a partir das relações entre memória, identidade e afetos. Para ela, a contemporaneidade é um momento em que “ideologias políticas cederam espaço para políticas identitárias (identity politics) e emoções coletivas como forças condutoras da política”1. No pano de fundo dessa situação, ela destaca a ascensão de movimentos autoritários, alguns com claro perfil fascista. Nas palavras da autora, “estamos experienciando uma forte atração por parte de partidos de direita que sistematicamente ‘desmantelam’ estruturas democráticas e promovem abertamente transformações iliberais”2. O apelo afetivo ao discurso nacionalista seria uma das estratégias principais desses movimentos.

Se o ponto de vista de Assmann, ainda que situado em uma perspectiva transnacional, leva em consideração predominantemente o ambiente europeu e do norte global, não seria forçoso projetarmos sua reflexão para o contexto brasileiro da última década, pelo menos desde que as manifestações de massa ocorridas em 2013 provocaram um momento de inflexão política na história nacional3. Logo em seguida, o golpe parlamentar de 2016, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e a realidade de seu governo avesso à democracia caracterizaram os últimos anos pela emergência e consolidação de forças de extrema-direita que se apropriaram do tema da nação a partir da chave das emoções e das disputas identitárias4. Neste debate, as relações entre memória e história ocupam um lugar privilegiado. Na conjunção delas, as diferentes e, por vezes, inovadoras formas de uso dos passados nacionais nas disputas políticas contemporâneas são traços característicos do contexto brasileiro atual5.

O objetivo deste artigo é refletir sobre uma dessas modalidades de uso político do passado, buscando compreender seu modus operandi no quadro ampliado de sustentação da extrema-direita brasileira, aqui encarada pelo fenômeno do bolsonarismo. Meu objeto de análise são algumas das produções de conteúdo audiovisual realizadas pela produtora Brasil Paralelo, particularmente aquelas voltadas para a narrativa da formação histórica da sociedade brasileira. Minha hipótese é que o fundamento ideológico dessa narrativa se assenta em uma perspectiva eurocêntrica de história, a qual define uma política identitária que encontra no conservadorismo cristão e no patriarcalismo oitocentista seus fundamentos principais. Além disso, busco argumentar que o modo pelo qual a empresa narra a história do Brasil se estrutura por meio da mobilização dos afetos nacionais, como forma de produzir engajamento com seus variados públicos. O foco principal desta discussão situa-se na tentativa de compreender as modalidades de funcionamento do negacionismo histórico no Brasil contemporâneo a partir daquilo que chamo aqui de usos afetivos do passado.

Para tanto, dividi minha argumentação nas seguintes seções. Em primeiro lugar, faço uma breve apresentação do surgimento e da atuação da empresa Brasil Paralelo no contexto recente das discussões políticas no Brasil. Em seguida, apresento mais diretamente as produções de conteúdo histórico difundidas por ela, particularmente a série Brasil: a última cruzada, destacando o viés eurocêntrico de sua narrativa e o caráter predominantemente conservador de sua abordagem sobre o passado nacional. Mostro como a série manifesta uma forma de uso do passado orientada para os debates contemporâneos no contexto brasileiro, uso esse que se aproxima de formas negacionistas da história, uma das mais notórias características do bolsonarismo.

Na seção seguinte, analiso as diferentes maneiras pelas quais a empresa produz engajamento com os variados públicos que consomem seus produtos. Defendo que ela se vale de uma estratégia de mobilização dos afetos que vincula a ideia de restauração da pátria com o resgate da história nacional. Como efeito disso, um dos principais afetos mobilizados pela Brasil Paralelo é o ódio contra professores e pesquisadores da história, acusados de serem os principais responsáveis pela decadência moral da nação. Como argumento final do texto, procuro explicar essa forma de uso do passado articulando o ressentimento, encarado aqui como uma “constelação afetiva” marcada por um sentimento de perda (a perda da “verdadeira história”), com uma forma particular de negacionismo que caracteriza o contexto contemporâneo no Brasil e oferece uma versão alternativa ou paralela do real que tenta negar os traços de realidade que o constituem6.

A Brasil Paralelo e o bolsonarismo

A empresa Brasil Paralelo iniciou suas atividades em 2016, no auge das manifestações populares que tomaram as ruas durante o processo de deposição da presidenta Dilma Rousseff. Foi naquele contexto, quando movimentos de extrema-direita ganhavam ressonância no país, que três jovens rapazes de Porto Alegre, cidade localizada no sul do Brasil, iniciaram um empreendimento de produção e divulgação de conteúdos políticos a partir de plataformas digitais. Pensada inicialmente como uma curadoria de palestras, depois convertida em produtora de audiovisual, logo se tornou um dos principais e mais eficientes veículos de disseminação do ideário político que serviu de sustentação ideológica para a ascensão e consolidação do bolsonarismo.

Estúdio de gravação da empresa Brasil Paralelo. Foto da Brasil Paralelo.

Estúdio de gravação da empresa Brasil Paralelo. Foto da Brasil Paralelo.

Seu primeiro grande produto disponibilizado ao público foi o Congresso Brasil Paralelo, realizado em 2016, que contou com a participação de diversos palestrantes chamados para discorrer sobre a situação política do país. Entre os convidados estavam parlamentares ligados ao agronegócio, magistrados da suprema corte, monarquistas vinculados ao grupo Tradição, Família e Propriedade7, intelectuais midiáticos da direita e extrema-direita, além de membros da própria família Bolsonaro8. Tal produção tornou a empresa nacionalmente conhecida, pelo menos em determinados circuitos políticos, favorecendo a captação de recursos para a continuação de suas atividades. Isso criou as condições para que pudesse realizar a produção seguinte, que teve uma repercussão ainda maior e a transformou em um ator político importante no cenário brasileiro. Lançada na segunda metade de 2017, a série documental Brasil: a última cruzada, objeto principal de análise deste artigo, é um grande relato sobre o processo formativo da sociedade brasileira, dividido em sete episódios que vão desde os primórdios da civilização ocidental até o contexto da Guerra Fria, no século XX9.

Outra de suas produções mais conhecidas é a série lançada em 2020 sobre o sistema educacional brasileiro intitulada Pátria educadora, uma referência explícita ao plano de governo da ex-presidenta Dilma Rousseff. Neste caso, trata-se de uma breve história da educação com o intuito principal de questionar e criticar a obra do educador Paulo Freire. Apesar de sua variada produção intelectual e do reconhecimento internacional pelas mais diversas vertentes pedagógicas, Freire é considerado por setores da direita brasileira como um simples doutrinador comunista, responsável pelas mazelas da educação brasileira. O mote da produção gira em torno da crítica superficial à obra do educador10.

Duas séries mais recentes indicam a continuidade da linha ideológica assumida pela empresa. Demonstram ainda seu interesse em ampliar o público-alvo e, naturalmente, diversificar suas linhas de financiamento. Em uma delas, A primeira arte, de 2021, o tema escolhido é a música, pensada com uma dimensão eminentemente moralizante que busca estabelecer um elo determinista entre cultura erudita e o grau civilizacional de uma sociedade. Nos vídeos, manifestações culturais populares, muitas delas apreciadas pela população jovem, pobre e negra brasileira, são estigmatizadas como causadoras de uma suposta decadência social11. Na outra, Cortina de fumaça, também de 2021, a empresa acena diretamente para a economia do agronegócio, voltando-se para as questões ambientais e reforçando duas de suas costumeiras obsessões: luta contra o comunismo e elogio da ditadura. Neste projeto, cria-se uma falsa dicotomia, sugerindo que movimentos em defesa do meio-ambiente preconizariam um anti-humanismo, colocando como coisas antagônicas a natureza e o humano e levando seu público consumidor para uma inexistente e inviável escolha entre um e outro12.

Além destas, a Brasil Paralelo oferece ainda produções a respeito do cinema, do contexto político nacional, da situação social na Argentina, entre outros temas. A amplitude de sua atuação a tornou conhecida como a “Netflix da direita”13. Hoje, a empresa oferece cursos e materiais de conteúdo audiovisual disponibilizados no Youtube e em uma plataforma privada de streaming, mediante o pagamento de mensalidades para a acesso aos demais itens do catálogo de seus produtos. Conciliando perspectivas que vão desde o liberalismo mais predatório e anti-Estado, vinculado a think tanks brasileiros como o Instituto Mises, até o fundamentalismo cristão propagado por autores como Olavo de Carvalho, chamado pela mídia nacional de guru de Bolsonaro, a Brasil Paralelo oferece ao público um conteúdo alinhado tanto à política econômica neoliberal, como à agenda conservadora dos costumes assumida por amplos setores da extrema-direita14. Com um crescimento exponencial desde a eleição de 2018, a consolidação de suas atividades e a ampliação do seu público consumidor se deu concomitante ao governo de Jair Bolsonaro na presidência da República. Mas, obviamente, todo esse sucesso comercial dependeu de um forte, eficiente e bastante custoso aparato publicitário.

A empresa vem utilizando um volume expressivo de recursos em pesadas estratégias de marketing digital. Entre agosto de 2020 e maio de 2021, investiu cerca de R$ 3,3 milhões (US$ 620 mil) em propaganda política apenas no Facebook, uma entre muitas das redes sociais em que atua. O valor é superior ao de todos os candidatos que concorreram nas eleições municipais de 202015. Entre novembro de 2021 e julho de 2022, liderava o ranking de empresas que mais investiam em propaganda política no Google, à frente mesmo de grandes siglas partidárias16. O faturamento da empresa em 2020 foi da ordem de R$ 30 milhões (US$ 5,6 milhões), marcando um crescimento de 335% em relação ao ano anterior. Para 2021, a perspectiva era duplicar isso e chegar na casa dos R$ 60 milhões (US$ 11,1 milhões)17. Mesmo sem dispor dos dados que confirmem ou não tal expectativa, não há dúvidas, portanto, de que se trata de um empreendimento com considerável sucesso comercial.

E este aporte volumoso de recursos para propaganda foi feito também por meio de violentas campanhas publicitárias. A publicidade para a série Brasil: a última cruzada, por exemplo, enfatizava quem eram seus principais adversários a serem derrotados: os professores de história. Segundo a propaganda da empresa veiculada amplamente em redes sociais, a série iria “desbancar” e mesmo “desmentir” historiadores e professores que atuavam nas instituições formais de ensino, como escolas e universidades. Além disso, faz uso constante de medidas judiciais e extra-judiciais como forma de intimidação e censura contra pesquisadores que estudam criticamente suas produções18.

Este tipo de estratégia se valia dos ataques que a extrema-direita brasileira, capitaneada por movimentos como o Escola sem Partido19, direcionavam aos pesquisadores e profissionais de ensino, a partir da chamada guerra cultural fomentada, entre outros, pelo citado Olavo de Carvalho. Em um breve, mas significativo vídeo de divulgação dos produtos comercializados pela empresa, intitulado O método que distorce a história do Brasil, Rafael Nogueira, figura recorrente nos vídeos da Brasil Paralelo, nomeado em 2019 presidente da Biblioteca Nacional pelo governo Bolsonaro, afirma em tom solene que:

“A história não é um patrimônio dos doutores em história, a história é um patrimônio público. Eles são uma espécie de guardiões. E se eles estão agindo mal, ou seja, eles pegam um tesouro que é nosso, tomam para eles dizendo que ‘não, não é seu: é nosso!’, e eles não lidam com isso de forma a nos contar essa história adequadamente, pelo contrário, eles criam narrativas para nos conduzir por caminhos que lhes interessam, então a gente tem que quebrar essa história. ‘Bom, como guardiões vocês estão muito mal! Nós vamos... volte a nós esse trabalho e nós vamos tentar aí, reencaminhar, né’. E aí, no futuro, ou futuros historiadores ou o povo mesmo decide”20.

As palavras são eloquentes da forma como a empresa e seus colaboradores entendem a história: o conhecimento histórico como “patrimônio público” e como um “tesouro”, cujos “guardiões” são os historiadores, e que pode ser “quebrado” para, então, ser “reencaminhado” conforme os interesses decididos pelo “povo”. Algo bastante distinto daquilo que é a historiografia, enquanto conhecimento científico, e daquilo que fazem historiadores e historiadoras. Por outro lado, algo muito próximo da visão conspiratória e das “mitologias políticas” difundidas pelo bolsonarismo21.

Eurocentrismo e abusos da história

Em 2017, a Brasil Paralelo lançou sua principal série de conteúdo histórico, voltada para o relato sobre o processo formativo da sociedade brasileira, intitulada Brasil: a última cruzada. Nela, a ideia de história fomentada pela empresa fica evidente. A série tem sete episódios que percorrem as “origens” do Brasil, remontando a um período de 30.000 anos atrás, quando “nossos ancestrais”, dando o salto “de caçadores a filósofos”, tentaram nos dizer algo por meio de pinturas rupestres22. Assim, vista como um “valor civilizatório” absoluto, a história surge na narrativa da empresa a partir de um princípio de homogeneidade de longo prazo, em que passado, presente e futuro estão ligados por uma compreensão linear, processual e progressiva do tempo. Em certa medida, ecoa neste relato a própria fórmula do conceito moderno e ocidental de história estudado por Reinhart Koselleck23.

Percebe-se que o tipo de história que a produtora vende assume um claro e consciente traço eurocêntrico, estabelecendo três pilares fundamentais como essência da humanidade: a filosofia grega, que definiu os critérios da ética; o direito romano, criando os parâmetros da justiça; a moral judaico-cristã, que serviu de base para o modelo de sociedade estruturado em torno de uma certa ideia de família. Assim, num “mergulho às origens remotas” da pátria, o relato se torna um elogio explícito à colonização europeia, vista como o fim ou telos do processo civilizatório humano.

A história do Brasil, ou seja, a história de “um povo que rompeu os limites impostos pelo oceano”, é pensada sobretudo como um apêndice da história da monarquia portuguesa, retomando elementos do período medieval ligados às cruzadas e ao cristianismo24. A Ordem dos Templários e, posteriormente, a Ordem de Cristo são apresentadas como os modelos de virtudes históricas que moldam a visão de mundo oferecida pela empresa. É, portanto, de tais elementos que são retirados os princípios que caracterizam o tipo de história narrada na série: uma história cristã, monarquista, guerreira e patriótica. Tais elementos compõem a compreensão histórica que chega até a segunda metade do século XX.

Ao longo de todos os episódios, vários trechos indicam claramente formas de uso e abuso do passado cometidos pela empresa. Devido a limitações de espaço, mencionarei apenas alguns exemplos. No primeiro episódio, quando começa a ser apresentada “uma história de sacrifício, virtude e coragem, que por muito tempo nos foi negada”, como sugere o narrador do vídeo, o tema da expansão islâmica durante a Idade Média é abordado. A “invasão” da Península Ibérica por muçulmanos é representada com manchas vermelhas tomando conta do mapa peninsular, criando um tom dramático para a cena. Eis, então, que um dos palestrantes entra em cena para narrar tais fatos e explicar a facilidade com que o processo ocorreu. Recorrendo a algumas “teorias” que teriam sido levantadas por “historiadores” (não nomeados por ele), o palestrante sugere que tudo se deu em razão da proibição de posse de armas imposta pelo reino visigótico às populações de origem romana. Em seguida, complementa: “então nós já vemos aí um processo de desarmamento, que facilitou, inclusive, a queda do seu próprio Estado”25.

O referido palestrante é Rafael Vitola Brodbeck, delegado de polícia e autor de livros como Jesus Cristo: rei do universo e Família católica, Igreja doméstica, este escrito em parceria com sua esposa, Aline Brodbeck26. Além disso, é um crítico feroz das campanhas de desarmamento da população e defensor do direito às armas como forma de “exercer a juridicamente assegurada legítima defesa”27. Ora, como é sabido, o governo Bolsonaro se notabilizou por intensas campanhas pró-armamento, facilitando por meio de decretos o acesso a armas de fogo, inclusive fuzis e armas de grosso calibre28. A fala de Brodbeck, nesse sentido, refere-se mais ao seu próprio presente do que ao passado medieval discutido no episódio. Trata-se, portanto, de um evidente uso ideológico do passado para fins políticos no presente.

O segundo episódio é iniciado com a fala de um dos proprietários da empresa afirmando que o patriotismo brasileiro foi por décadas destruído pela escola e pela mídia, e que a perversão de ideologias teria contaminado as pessoas, ocasionando que jovens perdessem o sentido da vida, descrentes das virtudes do povo e do país. Os produtos da Brasil Paralelo, nesse sentido, seriam como que remédios capazes de despertar a consciência histórica e dar um “passo em direção à retomada da nossa verdadeira cultura, a nossa verdadeira missão como brasileiros”29. No resgate dessa missão, não poderia ser deixado de lado o tema da colonização portuguesa nos trópicos, enfatizando sempre um suposto “caráter positivo” do empreendimento conquistador lusitano.

O fundamentalismo cristão difundido pela empresa, aliado a uma visão exclusivamente eurocêntrica da história, acaba por converter o episódio em um verdadeiro ataque às sociedades indígenas. Tudo em nome da defesa da civilização Ocidental, considerada ali por Rafael Nogueira como o “ponto mais alto a que a humanidade chegou até agora”. No mesmo tom, seu professor Olavo de Carvalho, entre uma tragada de cigarro e outra, critica a moralidade daquelas sociedades à luz do parâmetro moral do Ocidente, afirmando que tal parâmetro é “racionalmente defensável, tem dois milênios de tradição, de argumento, exame, análise etc, etc, etc”. Por outro lado, “essa cultura indígena não tem sequer alfabeto”30.

Padrão dos Descobrimentos, Lisboa. Foto de Gaspar Alves.

Padrão dos Descobrimentos, Lisboa. Foto de Gaspar Alves.

Já Leandro Narloch, jornalista conhecido por ter escrito alguns “guias politicamente incorretos” da história do Brasil, da América Latina e do Mundo, com os quais pretende “jogar tomates nas versões ultrapassadas da história”, sobe um pouco o tom ao propor, no mesmo episódio, uma estranha teoria sobre um suposto “isolamento” das sociedades ameríndias31. Seu argumento é que durante 10.000 anos havia um oceano separando as populações habitantes do continente americano, ao contrário do que ocorria entre os continentes europeu, asiático e africano, palco, segundo ele, de intensas trocas culturais. Em seguida, sugere que “acontece muito com sociedades humanas, quando ela fica isolada, ela emburrece, ela fica pobre culturalmente”. Como se não bastasse, continua afundando ainda mais suas palavras num sem-sentido historiográfico, definindo a chegada de europeus na América como uma “reconexão” entre povos após terem sido afastados há milhares de anos32.

Tais exemplos poderiam se multiplicar caso seguíssemos, episódio por episódio, até chegar no vídeo sobre o golpe de 1964 e a implementação de uma ditadura civil-militar no Brasil, quando, inclusive, uma fotografia de garimpeiros tirada pelo fotógrafo Sebastião Salgado em meados dos anos 1980 é falsamente utilizada como fonte para ilustrar a guerrilha do Araguaia, exterminada pelo governo militar mais de uma década antes. Para além dos abusos em relação ao passado, uma interpretação revisionista que, em muitos casos, pode ser considerada como negacionismo histórico caracteriza as produções sobre a história brasileira oferecidas pela empresa. É justamente neste ponto de sua atuação política que os vínculos ideológicos com o bolsonarismo se mostram mais evidentes.

No âmbito do projeto negacionista estabelecido pelo bolsonarismo, a Brasil Paralelo se insere a partir de algumas sutilezas técnicas que não fazem de seus discursos uma simples mentira ou negação factual do passado. O procedimento é um tanto mais complexo. Como já sugeriu Arthur Lima de Avila, “suas operações devem, nesse momento, dar-se no nível da representação que falseia a história sem, porém, negar os acontecimentos aos quais se refere”33. Em termos de seu modus operandi, trata-se, portanto, de um negacionismo histórico distinto daquele com o qual (e contra o qual) diversos historiadores tiveram que lidar a partir da década de 1970, quando a negação factual das câmaras de gás e do genocídio perpetrado pelos nazistas ganhava destaque nas discussões públicas na Europa e na América do Norte34.

No caso da Brasil Paralelo, sua prática negacionista não incide predominantemente sobre a realidade factual da história, embora haja alguns indícios disso nas produções da empresa, mas sim sobre os próprios procedimentos que constituem a produção do conhecimento histórico. Ou seja, em larga medida, o que é negado é menos a história em termos de seus fatos, do que a historiografia enquanto operação intelectual. Daí os recorrentes ataques contra historiadores e profissionais da educação, bem como contra as instituições formais de ensino e pesquisa, como escolas e universidades. Como já foi mencionado, tais ataques se inserem na lógica de uma guerra cultural que é travada na forma de uma cruzada moralista e que caracteriza um dos traços fortes do bolsonarismo.

O discurso afetivo em torno da nação ou, no caso, de uma ideia mais difusa de pátria assumida pela empresa desempenha papel fundamental nesta forma de uso do passado. Um exemplo contundente disso pode ser percebido no episódio em que a empresa trata da independência do Brasil. No caso, junto com o conteúdo veiculado no vídeo, as reações dos públicos da empresa são significativas para pensar o tema.

A mobilização dos afetos

Independência ou morte, quarto episódio da série, foi veiculado originalmente em junho de 2021. Trata-se de um relato em tom épico a respeito do episódio da independência do Brasil ocorrida em 1822. Centrado na figura de alguns poucos indivíduos, alçados a grandes heróis nacionais, como Pedro de Alcântara, primeiro imperador do Brasil, sua esposa Maria Leopoldina e José Bonifácio, a narrativa apela para o fervor patriótico como forma de engajamento com os públicos. Do ponto de vista historiográfico, o modelo factual e heroicizante da narrativa não deixa de ecoar exemplos historiográficos do século XIX brasileiro, quando a história assumia também um papel de força moralizante da nação a partir de uma “retórica da nacionalidade”35. Reside aí o sucesso de atração da Brasil Paralelo para suas diferentes audiências.

Uma das principais formas usadas pela empresa para engajar seus públicos se dá justamente por esta concepção moralista de história, que responde às expectativas que determinados grupos sociais nutrem a respeito do passado nacional. Nesse sentido, ela encara o processo histórico a partir de uma narrativa dicotômica e maniqueísta, estabelecendo dois campos principais da disputa política: o campo da virtude e o do vício, os bons de um lado, os maus de outro. A polarização política e a definição amigo/inimigo, portanto, são condições incontornáveis para esse tipo de engajamento. Complementar a ele, o recurso constante a uma retórica dos vencidos funciona também como modo de engajamento aos produtos da empresa. Trata-se de uma estratégia recorrente nos episódios da série: colocar-se em uma posição de marginalizados, excluídos ou mesmo de derrotados nos confrontos das chamadas “guerras culturais”, particularmente no processo de transição democrática pós-ditadura, quando teria havido uma suposta hegemonia cultural esquerdista no país. Por isso o produto é vendido como “uma história de sacrifício, virtude e coragem” que durante muitos anos foi negada e, assim, o objetivo do projeto é “reverter as mazelas feitas na nossa cultura nos últimos anos”36.

Ainda segundo o relato veiculado na série, “ideologias perversas contaminaram o imaginário popular, causando danos incalculáveis em jovens, que hoje estão perdidos e sem norte [...] Estamos distribuindo o antídoto em cada canto do país”37. O que se oferece, portanto, é uma narrativa da história pensada sob a ótica daqueles que teriam sido vencidos, mas que guardariam uma indiscutível legitimidade moral capaz de fundamentar as lutas políticas contemporâneas a partir de uma suposta reescrita da história38. Daí resulta que a história é vista como recurso terapêutico: o que é oferecido, afinal, é um produto adequado para tempos de incertezas, para um contexto de crise política e social, uma história que legitima e dá espessura temporal para as crenças compartilhadas por determinados setores da sociedade, propiciando uma espécie de conforto moral a partir do uso higienizado e edificante do passado.

Uma outra forma de adesão com as audiências se dá por meio de uma narrativa sintética, englobante, que tenta abarcar a totalidade do processo histórico brasileiro no sentido de revelar os traços fortes de uma formação. A ideia de formação do Brasil, enquanto pátria, e dos brasileiros, como patriotas, confere legibilidade para a representação do passado nacional, inserindo-o de forma marcadamente eurocêntrica no conjunto mais amplo das “sociedades judaico-cristãs ocidentais”, cujo fundamento reside, como já indicado, em três eixos bem delimitados: a filosofia grega, o direito romano e a moral cristã.

Todos esses elementos aqui brevemente esboçados estabelecem formas variadas de vínculo entre a produtora, os produtos por ela vendidos e os públicos cuja atenção consegue captar. Eles indicam também uma forma particular de uso do passado nacional que se mostra pertinente aos anseios políticos manifestados pelo bolsonarismo. Gostaria aqui de mencionar apenas dois caminhos para a reflexão proposta: o primeiro segue pela forma de mobilização dos afetos como elemento central da retórica narrativa da série; o segundo diz respeito à compreensão nostálgica da história oferecida, a qual pressupõe não apenas uma forma de apreensão da experiência de formação do Brasil, mas também uma missão de restauração, resgate ou mesmo de regeneração cultural da pátria a partir de um uso político do passado. Neste ponto da análise, vou me concentrar especificamente no referido episódio sobre a independência do Brasil, especialmente nas formas de sua recepção.

Uma das características que logo chama a atenção na forma como o conteúdo do vídeo é recebido pelos variados públicos é a carga de emotividade que ele desperta. Lindo, espetacular, emocionante, beleza, prazer, comoção, lágrimas, choro são termos e expressões recorrentes nos comentários, os quais são mobilizados por algumas estratégias básicas: o relato centrado na figura de indivíduos heroicizados pela narrativa; o destaque ao fervor patriótico da locução in off que conduz toda a narrativa por meio de um jogo de imagens, sons e textos; o uso de uma trilha sonora que confere ao relato um toque de dramaticidade e um caráter épico, composta desde a abertura por um hino cristão medieval (Da pacem domine) até o final do vídeo, com a Sonata ao Luar, de Beethoven39.

Essa dimensão da emotividade ou essa mobilização dos afetos encontra eco em uma das principais respostas do público à mitologia política oferecida pela empresa, ou seja, a ideia de restauração, que assume feições complementares: restauração da monarquia, da pátria, da cultura, dos valores, da dignidade do povo, do orgulho, do amor pela terra, da identidade nacional (todos esses são termos utilizados nos comentários ao vídeo). Importa ressaltar ainda que na mesma rede semântica em que a ação restaurativa ganha espaço, a ideia de resgate é igualmente instrumentalizada, mas com uma significativa particularidade: se a restauração assume variadas dimensões e objetos a serem restaurados, o resgate é predominantemente o da história, da verdade ou, na conjunção de ambos, da “nossa história verdadeira”. Uma história que, na constelação mitológica da empresa e no imaginário criado pelos públicos, havia sido ocultada, escondida, negada e, inclusive, roubada por parte dos professores nas escolas, dos historiadores nas universidades e dos jornalistas na grande mídia.

Restauração da pátria e resgate da história são, portanto, ações concomitantes e complementares na cruzada fomentada pela empresa e assumidas por sua clientela, o que mostra a efetividade da estrutura imaginária desta mitologia política: vemos ali uma conspiração articulada por inimigos da pátria, a qual é respondida por um anseio salvacionista organizado em termos de uma unidade e voltado, sobretudo, para a restauração de uma idade perdida e para o resgate de uma história negada. O fundo moral dessa perspectiva acaba por assumir um viés afetivo que, além do evidente amor pela pátria que é instigado e compartilhado, mobiliza também outras emoções importantes.

Cartaz da série Brasil: A última Cruzada.

Cartaz da série Brasil: A última Cruzada.

Uma delas é o ódio que, no caso, tem um objeto privilegiado: os professores. São eles os principais responsáveis pelo ocultamento ou mesmo pelo roubo da história. O usuário Arthur Bernardo extravasou isso ao publicar o seguinte comentário: “sinto ódio de todos os meus professores, por terem me negado a verdade por tanto tempo”40. Ele foi acompanhado por Nilson Figueiredo Alves Junior: “que raiva de meus professores de história do brasil [sic], que tornaram insignificante nosso passado”41. E se Djalma Jr. praguejou “malditos professores de meia pataca”42, Joaquim Anselmo ameaçou tomar medidas jurídicas: “minha vontade é processar todos meus professores de historia [sic]”43, enquanto o usuário Scooby Motos esbravejava sua “vontade de vomitar na cara dos meus professores e dos professores dos meus filhos, por nos negarem a verdade”44.

Obviamente, há comentários que destacam a importância dos professores e do conteúdo disponibilizado para ser usado nas escolas, mas o que cabe salientar é que os sentimentos negativos em relação aos docentes foram fomentados pela própria estratégia mercadológica da empresa, cuja publicidade dizia que aquela era uma série que iria “desbancar o seu professor de história” ou fazer você parar de “acreditar nas mentiras do seu professor de história”45. Os ecos disso ficam evidenciados nas respostas do público: para Zeca Pereira, a série mostra “a história negada pelo professor esquerdista que odeia a tradição e valores morais históricos”46, já para Rafael Gasparotto, o episódio faz perceber que “uma história como a de nosso país é deturpada e ironizada por professores preocupados apenas com doutrinação marxista”47, e Elizeu Castro lamentou a quantidade de “tempo perdido nas salas de aula com professores de esquerda”48.

Tudo isso levou outro usuário, Bruno Mendonça, a afirmar sobre a história narrada pela Brasil Paralelo: “esse sim é um verdadeiro projeto de resgatar a história do Brasil que foi negada durante muito tempo por professores analfabetos”49. Assim, essa história negada que precisa ser resgatada é também uma história perdida, que exige ser reencontrada. Yechezkel Brito chegou a lamentar a situação: “nossa... o Brasil perdeu tanto ao romper com seu passado”50, e Amanda Martins salientou que “nós Brasileiros em meio a tanta decepção e desespero perdemos o patriotismo quase por completo”51. Esse sentimento de perda, por sua vez, está diretamente vinculado a uma ideia de “nostalgia restaurativa”, tal como definida pela crítica Svetlana Boym, ou seja, um desejo de regressar ou mesmo de restaurar um lar perdido (o nostos que conforma a etimologia da palavra), algo característico de movimentos nacionalistas e de extrema-direita52. O que é oferecido no tipo de narrativa que a empresa elabora é justamente a imagem idealizada do passado que se adequa a esse sentimento de perda.

Disso resulta, então, um dos traços que parecem distintivos do tipo de conteúdo e da forma como ele é apropriado pelos seus públicos: o ressentimento. Na seção final deste artigo, pretendo estabelecer um vínculo entre a forma de ressentimento manifestada pela narrativa da Brasil Paralelo, bem como pela forma como ela é recebida pelo público, e os traços peculiares do negacionismo histórico que caracterizam o contexto brasileiro contemporâneo.

O negacionismo como ressentimento

A psicanalista Maria Rita Kehl definiu o ressentimento como uma “constelação afetiva” que nasce da experiência da perda, tornando o ressentido aquele que, sem saber como resolver os dilemas dessa experiência, passa a atribuir sempre aos outros (professores, jornalistas, esquerdistas, comunistas e toda a ampla gama de inimigos construídos pela empresa) a responsabilidade pela situação em que se encontra. Como se percebe, portanto, a figura da conspiração é fundamental para estruturar o imaginário do ressentimento. Nas palavras da autora,

“não se pode dizer exatamente que o ressentido tenha perdido um objeto; o que ele perdeu foi um lugar. A posição de vítima passiva de onde ele formula suas queixas sugere que o lugar perdido não teria sido, a seu ver, um lugar conquistado, e sim um lugar que, de direito, deveria ser seu”53.

Na mitologia política vendida pela Brasil Paralelo, o lugar que, tal como numa cruzada, é preciso reconquistar, é o lar perdido que o sentimento nostálgico pretende novamente habitar, um lar onde pátria e história passam a ser conceitos quase que equivalentes: a restauração de uma e o resgate da outra são processos correlatos nessa forma particular de uso político do passado. O passado que surge desta situação, em consequência, é um passado revelado, uma obra de revelação. Isso explica em grande parte o tipo de engajamento que os públicos mantêm com o conteúdo da empresa, que manifesta antes uma relação de fé com a história finalmente revelada, até então ocultada pelos professores e pesquisadores, do que uma atitude de conhecimento, a qual pressupõe um necessário gesto crítico diante do objeto conhecido.

A história do Brasil vendida pela Brasil Paralelo é, portanto, o resultado de uma revelação possibilitada pela bravura dos novos cruzados em sua guerra de reconquista contra os infiéis. Revelação que ganha espessura temporal significativa, pois se converte em uma “forma de transcender a nossa própria experiência e superar a realidade que nos é imposta”54. Esta superação só se torna efetivamente possível quando um determinado passado, o passado do século XIX, mais do que algo a ser superado ou esquecido, é configurado enquanto fonte de ensinamento e de virtudes a serem reatualizadas. O contexto do passado oitocentista, portanto, é encarado como o lugar da ordem que serve de parâmetro para um posicionamento diante de um presente percebido como desordem e marcado por uma profunda crise que, além de política e econômica, é caracterizada como uma crise moral, como um momento de perda dos valores fundantes da pátria.

Se os construtores do Império conseguiram consolidar uma sociedade predominantemente conservadora, por meio do que Ilmar Rohloff de Mattos habilmente chamou de “recunhagem da moeda colonial”, não seria forçoso considerar que aquilo do que se trata na proposta da Brasil Paralelo é de uma espécie de recunhagem da moeda imperial, o processo a partir do qual restauração e resgate convertem-se na atividade de regeneração moral da nação segundo seus valores originais e estruturantes: aqueles de uma sociedade patriarcal e escravista onde os lugares sociais estavam “devidamente” marcados e assegurados55. Pois parece ser justamente quando estes lugares sofrem modificações, por mínimas que elas sejam, que determinadas formas de emoções políticas são colocadas em funcionamento como uma reação à realidade que se apresenta. Emoções aqui encaradas não como uma categoria contraposta ao interesse racional, como se fosse algo inato à biologia humana, mas sim como uma dimensão que é mediada por reações psicológicas e normas culturais56. A essa forma de encarar a ação dos afetos como determinantes das relações sociais, Sara Ahmed chamou de “política cultural das emoções”57.

Nesse sentido, pensando no caso específico da Brasil Paralelo, o vínculo entre nacionalismo e emoções políticas permite sugerir que se trata ali de uma forma de uso afetivo do passado que serve como resposta à percepção ressentida de que algo foi perdido e precisa ser restaurado ou resgatado. Esse sentimento de perda é encarado como resultado da ação de determinadas forças ou atores sociais. Daí resulta que o amor à nação normalmente vem acompanhado pelo ódio em relação àqueles que são responsabilizados pela perda e, nesse sentido, colocados no lugar de inimigos da pátria. Como afirma Ahmed, “sentir amor pela nação, em que amor é um investimento que precisa dar retorno (você é o ‘pagador de imposto’), é também sentir-se ferido por estes outros, que estão ‘tirando’ o que é seu”58. Assim, tratar das emoções na política significa sempre tratar de uma “economia afetiva” em que várias formas de afetos são postos em funcionamento nos mesmos processos sociais, tais como amor, ódio, ressentimento, vergonha, inveja etc.

No caso aqui tomado como objeto de análise, gostaria de sugerir que é possível considerar essa mobilização dos afetos realizada pela Brasil Paralelo como uma das formas assumidas pelo negacionismo contemporâneo. Como já sugeriu Rodrigo Nunes, em seu ensaio sobre os tempos bolsonaristas, o negacionismo deve ser pensado como um “fator afetivo central do nosso tempo, um componente essencial de nosso estado anímico coletivo”59. Recorrendo ao conceito psicanalítico de renegação (Verleugnung), Nunes oferece uma intuição relevante para refletirmos sobre as relações entre aquilo que a Brasil Paralelo oferece em seus produtos e a forma como estes são recebidos pelos seus públicos consumidores. Nas suas palavras,

“minha intuição aqui é que o estado que descrevemos como ‘estar em negação’ – uma tentativa inconsciente de se proteger de uma experiência ou pensamento traumático por meio da recusa de admitir sua realidade, mecanismo que Freud denominou renegação – gera uma demanda pela mercadoria que os negacionistas conscientes fornecem”60.

Ainda que esta formulação carregue o risco de criar uma falsa dicotomia entre produtores conscientes e consumidores inconscientes, conferindo a estes uma posição meramente passiva no circuito de consumo dos produtos culturais – algo que, de resto, não é assumido neste artigo –, creio ser pertinente relacionar a ideia dessa experiência traumática que coloca indivíduos e grupos sociais em um estado de renegação com o ressentimento causado pela percepção da perda de valores nacionais que, segundo a Brasil Paralelo, seria a principal consequência da crise contemporânea. Não custa retomar aqui um trecho citado anteriormente, quando o narrador da série Brasil: a última cruzada afirma que “ideologias perversas contaminaram o imaginário popular, causando danos incalculáveis em jovens, que hoje estão perdidos e sem norte [...] Estamos distribuindo o antídoto em cada canto do país”61. Voltando à reflexão de Rodrigo Nunes, é possível assumir que “é exatamente para essa situação que a realidade alternativa que a extrema direita coloca no lugar do conteúdo traumático renegado prepara seus adeptos”62.

Como já colocado anteriormente, considerar as produções de história da Brasil Paralelo como produtos que fazem parte do modus operandi do negacionismo contemporâneo não significa supor que aquilo do que se trata é simplesmente da negação de fatos históricos. Embora haja ali distorções e falseamentos flagrantes, a situação é um tanto mais complexa, na medida em que se trata de negar, inclusive, a própria legitimidade do conhecimento histórico cientificamente conduzido, bem como de seus praticantes, como discurso autorizado sobre a realidade. Como salientado acima, os recorrentes ataques aos professores, pesquisadores e às instituições formais de ensino e pesquisa têm por objetivo justamente fundamentar este trabalho de negação.

Mas o que este artigo pretendeu argumentar é que há ainda uma outra camada interpretativa que se coloca quando pensamos o tema do negacionismo, particularmente aquele realizado pela Brasil Paralelo. Esta camada diz respeito à mobilização dos afetos políticos como estratégia negacionista. Na origem deste processo, o ressentimento e as emoções dele decorrentes são elementos fundamentais para provocar o engajamento de amplos setores sociais com as pautas vendidas pela produtora, dentro do quadro ampliado do contexto autoritário vigente no país. E um dos mais importantes vetores que estruturam aquelas pautas é, certamente, o apelo ao discurso nacionalista e ao fervor patriótico. Não à toa, a história e os passados nacionais se tornam aí objetos privilegiados nas disputas políticas contemporâneas.

Assim, os vínculos entre nacionalismo e negacionismo histórico perceptíveis ao se analisar as produções de história da Brasil Paralelo são estabelecidos a partir de uma forma bastante particular de uso afetivo do passado. Obviamente, há muita coisa neste processo que ecoa experiências anteriores. Como já advertiu Shoshana Felman, comentando sobre as primeiras décadas do século XX, “o fascismo legitima a si mesmo em nome da identidade nacional baseada na unidade e na continuidade da história”63. Hoje, quase cem anos após as experiências sobre as quais Felman escreveu, a sensação incômoda de um retorno desse passado persiste. Mas ela não deve vir acompanhada da ilusão de que as mesmas formas de resistência de um século atrás serão suficientes para lutar contra o avanço da barbárie. Renovar o imaginário das lutas políticas, eis um dos nossos mais urgentes desafios para o século XXI.

Unfold notes and references
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1

Aleida Assmann, “Re-imagining the nation: memory, identity and the emotions”, European Review, vol. 29, n. 1, 2021, p. 4. Gostaria de agradecer ao incentivo de Angela de Castro Gomes e Benito Schmidt para a escrita deste texto. Agradeço igualmente aos pesquisadores do LUPPA, pelos debates e pelo ambiente de constante aprendizado criado nele.

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2

Aleida Assmann, “Re-imagining the nation: memory, identity and the emotions”, European Review, vol. 29, n. 1, 2021, p. 4.

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3

Desde abril de 2013, em diversas cidades brasileiras, movimentos sociais tomaram as ruas a partir de demandas que questionavam o valor das passagens de transporte público, propondo outros modelos de mobilidade urbana e outras formas de uso dos espaços públicos. A partir de junho, uma parte de tais manifestações começou a ganhar um viés visivelmente reacionário, colocando na agenda demandas de teor anti-sistema e mesmo antipolítico oriundas de setores da direita e da extrema-direita. Daquela conjuntura emergiram diversos atores sociais que ganharam relevância na onda conservadora e autoritária contemporânea. Nesse sentido, o ano de 2013 pode ser visto como um ponto de inflexão na história recente do país.

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4

A respeito da conjuntura brasileira desde 2013, ver o dossiê “Comprendre la crise au Brésil”, Brésil(s). Sciences humaines et sociales, n. 1, 2018. Para um conjunto variado de reflexões sobre o bolsonarismo e o governo de Jair Bolsonaro, ver Leonardo Avritzer, Fábio Kerche e Marjorie Marona (dir.), Governo Bolsonaro. Retrocesso democrático e degradação política, Belo Horizonte, Autêntica, 2021.

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6

Ao longo deste artigo, retomei ideias e trechos trabalhados em outros textos que elaborei a respeito das produções da empresa. São eles: Fernando Nicolazzi, “El negacionismo como negocio: usos del passado y comercio de la historia en el bolsonarismo”, in Fabio Wasserman (dir.), Entre memoria e historia. Pasado y politica em América Latina (siglo XXI), Buenos Aires, Silex Ediciones, 2023 (prevue); Fernando Nicolazzi, “Brasil Paralelo: restaurar a pátria, resgatar a história. A Independência entre a memória pública e os usos do pasado”, in Wilma Peres Costa e Télio Cravo (dir.), Independência: Memória e Historiografia, São Paulo, Edições Sesc/Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, 2022.

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7

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) é uma organização civil ultraconservadora, criada pelo intelectual católico Plínio Corrêa de Oliveira em 1960, com o objetivo de propagar as tradições católicas e combater ideias socialistas e comunistas.

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8

Brasil Paralelo, “Congresso Brasil Paralelo”, disponível no YouTube (acesso em 25/09/2022).

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9

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada”, disponível no YouTube (acesso em 25/09/2022).

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10

Brasil Paralelo, “Pátria educadora”, disponível no YouTube (acesso em 25/09/2022).

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11

Brasil Paralelo, “A primeira arte”, disponível no YouTube (acesso em 25/09/2022).

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12

Brasil Paralelo, “Cortina de fumaça”, disponível no YouTube (acesso em 25/09/2022).

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13

Fabio Zanini, “Produtora Brasil Paralelo vive crescimento meteórico e quer ser ‘Netflix da direita’”, Folha de São Paulo, 29/05/2021 (acesso em 25/09/2022); Bruno Meyerfeld, “Le ‘Netflix de droite’ brésilien fait le plein d’abonnés”, Le Monde, 31/12/2021 (acesso em 25/09/2022).

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14

Olavo de Carvalho (1947-2022), astrólogo e autoproclamado filósofo e professor, desempenhou um papel importante na difusão de ideologias conspiratórias no Brasil desde a década de 1990. Foi um dos principais ideólogos do bolsonarismo. Sobre o impacto de suas ideias, ver João Cezar de Castro Rocha, Guerra cultural e retórica do ódio. Crônicas de um Brasil pós-político, Goiânia, Caminhos, 2021. Sobre a relação da empresa com think tanks brasileiros, ver Rafael Herculano Andrade, Negacionismo no Youtube: um “Brasil Paralelo” a serviço das novas direitas, Monografia de história, São Paulo, Unifesp, 2022.

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19

Movimento de extrema-direita criado em 2003 pelo Procurador do Estado de São Paulo, Miguel Nagib, e com amplo apoio de setores bolsonaristas, que promovia uma verdadeira perseguição a professores e professoras, taxados indiscriminadamente de “doutrinadores comunistas”. Sobre o tema, ver Fernando Penna, “‘Escola sem Partido’ como ameaça à educação democrática: fabricando o ódio aos professores e destruindo o potencial educacional da escola”, in André Roberto de Machado e Maria Rita de Almeida Toledo (dir.), Golpes na história e na escola: o Brasil e a América Latina nos séculos XX e XXI, São Paulo: Cortez, 2017, p. 247-260.

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20

Brasil Paralelo, “O método que distorce a história do Brasil”, disponível no YouTube (acesso em 25/09/2022).

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21

Desenvolvi o argumento a respeito das “mitologias políticas” da Brasil Paralelo, inspirado pela obra Mythes et mithologies politiques de Raoul Girardet (Seuil, 1986), em Fernando Nicolazzi, “El negacionismo como negocio: usos del passado y comercio de la historia en el bolsonarismo”, in Fabio Wasserman (dir.), Entre memoria e historia. Pasado y politica em América Latina (siglo XXI), Buenos Aires, Silex Ediciones, 2023 (prevue).

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22

Os episódios e suas datas de lançamento são os seguintes: 1. A cruz e a espada (setembro de 2017); 2. A Vila Rica (outubro de 2017); 3. A guilhotina da igualdade (novembro de 2017); 4. Independência ou Morte (dezembro de 2017); 5. O último reinado (março de 2018); 6. Era Vargas (abril de 2018); 7. 1964. O Brasil entre armas e livros (abril de 2019). Os trechos entre aspas foram retirados das produções da empresa.

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23

Reinhart Koselleck, Futuro passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos, Rio de Janeiro, Contraponto, Editora PUC, 2006.

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24

Sobre o apreço que a extrema-direita brasileira nutre pela Idade Média, remeto a Paulo Pachá, “Why the brazilian far right loves the European middle-ages”, Pacific Standard, 12/03/2019 (acesso em 25/09/2022).

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25

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada, episódio 1: ‘A cruz e a espada’”, a partir de 00:12:00, disponível no YouTube (acesso em 20/12/2021).

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26

Informações retiradas do site da loja de produtos religiosos Ecclesiae (acesso em 25/09/2022).

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27

Rafael Vitola Brodbeck, “Legítima defesa: uma questão de dignidade”, Revista Vila Nova, 29/04/2013 (acesso eM 25/09/2022).

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29

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada, episódio 2: ‘A Vila Rica’”, disponível no YouTube (acesso em 20/12/2021).

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30

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada, episódio 2: ‘A Vila Rica’”, a partir de 00:30:00, disponível no YouTube (acesso em 20/12/2021).

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31

Sobre as produções de Narloch, ver Renato Pinto Venâncio, “O incorreto no guia politicamente incorreto da história do Brasil”, HH Magazine, 09/11/2018 (acesso em 30/09/2022); e Rodrigo Perez Oliveira, “Por que vendem tanto? O consumo de historiografia comercial no Brasil em tempos de crise (2013-2019)”, Revista Transversos, n. 18, 2020.

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32

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada, episódio 2: ‘A Vila Rica’”, a partir de 00:09:15, disponível no YouTube (acesso em 20/12/2021).

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33

Arthur Lima de Avila, “Qual passado escolher? Uma discussão sobre o negacionismo histórico e o pluralismo historiográfico”, História da Historiografia, vol. 42, n. 87, 2021, p. 167.

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34

Eduardo Wright Cardoso, “Em busca da mentira: historiadores contra a falsificação do Holocausto”, História da Historiografia, vol. 42, n. 87, 2021.

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35

Temístocles Cezar, Ser historiador no século XIX. O caso Varnhagen, Belo Horizonte, Autêntica, 2018.

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36

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada, episódio 1: ‘A cruz e a espada’”, 00:00:09, disponível no YouTube (acesso em 20/12/2021).

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37

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada, episódio 2: ‘A Vila Rica’”, 00:00:10, disponível no YouTube (acesso em 20/12/2021).

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38

Reinhart Koselleck escreveu sobre a relação entre experiência da derrota e reescrita da história em Reinhart Koselleck, “Mudança de experiência e mudança de método. Um esboço histórico-antropológico”, in Estratos do tempo. Estudos sobre história, Rio de Janeiro, Contraponto, Editora PUC, 2000.

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39

Esse recurso de captação da audiência foi igualmente notado por Rodrigo Turin, “Os tempos da Independência: entre a história disciplinar e a história como serviço”, Almanack, n. 25, 2020.

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40

Comentário postado em 22/12/2019.

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41

Comentário postado em 29/02/2020.

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42

Comentário postado em 05/12/2020.

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43

Comentário postado em 27/10/2020.

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44

Comentário postado em 28/12/2017.

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45

Propaganda divulgada no perfil do Instagram da empresa no ano de 2017.

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46

Comentário postado em 23/12/2017.

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47

Comentário postado em 24/12/2017.

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48

Comentário postado em 13/01/2018.

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49

Comentário postado em 23/01/2018.

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50

Comentário postado em 28/12/2017.

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51

Comentário postado em 03/01/2018.

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52

Svetlana Boym, The future of nostalgia, Nova York, Basic Books, 2001.

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53

Maria Rita Kehl, Ressentimento, São Paulo, Boitempo, 2020, p. 36.

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54

Brasil Paralelo, “A Última Cruzada, episódio 5: ‘O Último Reinado’”, 00:00:25, disponível no YouTube (acesso em 13/06/2023).

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55

Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo Saquarema. A formação do Estado Imperial, São Paulo, Hucitec, 2004.

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56

Nicolas Demertzis, “Introduction: theorizing the emoticons-politics nexus”, in Emotions in politics. The affect dimension in political tension, Nova York, Palgrave Macmillan, 2013.

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57

Sara Ahmed, The cultural politics of emotion, Edinburgh, Edinburgh University Press, 2014 (2004).

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58

Sara Ahmed, The cultural politics of emotion, Edinburgh, Edinburgh University Press, 2014, p. 1.

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59

Rodrigo Nunes, Do transe à vertigem. Ensaio sobre bolsonarismo e um mundo de transição, São Paulo, Ubu Editores, 2022, posição 27 (edição digital).

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60

Rodrigo Nunes, Do transe à vertigem. Ensaio sobre bolsonarismo e um mundo de transição, São Paulo, Ubu Editores, 2022, posição 536 (edição digital).

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61

Brasil Paralelo, “Brasil: a última cruzada, episódio 2: ‘A Vila Rica’”, 00:00:10, disponível no YouTube (acesso em 20/12/2021).

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62

Rodrigo Nunes, Do transe à vertigem. Ensaio sobre bolsonarismo e um mundo de transição, São Paulo, Ubu Editores, 2022, posição 548 (edição digital).

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63

Shoshana Felman, The juridical unconscious. Trials and trauma in the Twentieth century, Cambridge, Harvard University Press, 2002, p. 29.